Como a Nestlé reduziu 43% do contencioso trabalhista com inteligência artificial jurídica e jurimetria

A Nestlé enfrentava um desafio comum a grandes empresas: milhares de processos trabalhistas gerando milhões de dados impossíveis de analisar manualmente.
Sumário

Fundada há mais de 150 anos e presente em praticamente todos os continentes, a Nestlé é uma das maiores empresas de alimentos e bebidas do mundo. No Brasil, a companhia opera dezenas de fábricas, centros de distribuição e escritórios, empregando milhares de profissionais em diferentes regiões do país.

Em uma organização com milhares de colaboradores, operações distribuídas por todo o território nacional e um volume expressivo de processos trabalhistas, identificar a origem de determinados litígios pode ser um desafio tão complexo quanto gerenciar os próprios processos. Foi exatamente esse cenário que levou a Nestlé a buscar uma nova abordagem para compreender seu contencioso trabalhista.

O que começou como uma iniciativa de análise de dados evoluiu para um projeto que combinou jurimetria, inteligência artificial e estratégia jurídica, culminando em uma redução aproximada de 43% em um conjunto relevante de demandas trabalhistas.

O que o caso da Nestlé revela sobre o futuro dos departamentos jurídicos?

Nos últimos anos, a inteligência artificial passou a ocupar um espaço central nas discussões sobre o futuro do trabalho jurídico. Escritórios de advocacia, departamentos jurídicos e tribunais passaram a experimentar ferramentas capazes de revisar contratos, resumir documentos, realizar pesquisas jurisprudenciais e automatizar tarefas que antes consumiam horas de trabalho especializado.

Apesar do entusiasmo em torno dessas aplicações, grande parte das organizações ainda utiliza a inteligência artificial de forma incremental. Em outras palavras, a tecnologia é empregada para executar mais rapidamente atividades que já eram realizadas anteriormente. Trata-se de um avanço importante, mas que representa apenas uma fração do potencial transformador que essas ferramentas podem oferecer.

O caso da Nestlé mostra um caminho diferente. Em vez de utilizar inteligência artificial apenas para ganhar produtividade, a companhia empregou tecnologia e jurimetria para identificar um problema estrutural dentro de seu contencioso trabalhista, construir uma estratégia baseada em evidências e implementar mudanças que resultaram em uma redução aproximada de 43% em um conjunto relevante de demandas judiciais.

O desafio silencioso enfrentado por grandes departamentos jurídicos

A gestão do contencioso trabalhista em empresas de grande porte envolve um desafio que vai muito além da condução dos processos. À medida que operações corporativas se expandem geograficamente e ganham complexidade, cresce também o volume de ações judiciais, decisões, pedidos, recursos e informações que precisam ser monitoradas.

O problema é que o aumento da quantidade de dados nem sempre resulta em aumento de conhecimento.

Segundo o relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Judiciário brasileiro movimenta dezenas de milhões de processos em tramitação. A digitalização dos tribunais ampliou exponencialmente a disponibilidade dessas informações, mas também tornou mais difícil identificar quais padrões realmente merecem atenção.

Na prática, muitos departamentos jurídicos convivem com uma situação paradoxal: possuem mais dados do que nunca, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar essas informações em decisões estratégicas.

A Nestlé se encontrava diante desse cenário.

Além do elevado volume de processos trabalhistas distribuídos por todo o país, a companhia precisava lidar com centenas de tipos diferentes de pedidos e micropedidos formulados nas ações. Essas informações não chegavam organizadas ou padronizadas. Pelo contrário, apareciam dispersas em milhares de decisões produzidas por diferentes tribunais, magistrados e contextos processuais.

Embora fosse possível analisar esse material manualmente, o esforço necessário seria incompatível com a velocidade exigida por uma operação jurídica moderna.

O verdadeiro desafio era descobrir quais dados realmente importavam.

Da inovação aberta à construção da solução

Foi nesse contexto que nasceu a parceria entre a Nestlé Brasil e a Turivius.

A companhia lançou um desafio por meio de sua plataforma de inovação aberta. O objetivo era encontrar uma solução capaz de transformar grandes volumes de informações processuais em inteligência estratégica para apoiar a tomada de decisão jurídica.

Após um processo que envolveu apresentação de propostas, desenvolvimento de piloto e validação dos resultados, a Turivius foi selecionada para desenvolver a solução.

A premissa era relativamente simples: utilizar inteligência artificial para analisar milhares de processos trabalhistas e identificar padrões que dificilmente seriam percebidos por meio de análises convencionais.

A execução, no entanto, exigia uma infraestrutura tecnológica robusta.

Por trás do projeto estava a capacidade de capturar decisões judiciais diretamente dos tribunais, classificar automaticamente pedidos e micropedidos trabalhistas, estruturar informações processuais e consolidar esses dados em uma visão única da carteira contenciosa da empresa.

Mais do que organizar informações, a tecnologia precisava responder a uma pergunta estratégica: quais fatores estavam gerando maior impacto para o negócio e onde estavam as oportunidades mais relevantes para atuação preventiva?

Quando a jurimetria transforma percepção em evidência

Uma das contribuições mais importantes da jurimetria para o universo jurídico está na capacidade de substituir percepções por evidências.

Em muitos departamentos jurídicos, profissionais experientes conseguem identificar intuitivamente determinados padrões. Sabem quais temas costumam gerar mais litígios, quais regiões apresentam maior risco ou quais matérias demandam atenção especial.

O problema é que a intuição, por mais valiosa que seja, raramente é suficiente para justificar investimentos, mobilizar lideranças ou promover mudanças organizacionais.

Foi exatamente nesse ponto que a inteligência artificial aplicada pela Turivius começou a gerar valor.

Ao processar milhares de decisões trabalhistas, a plataforma revelou uma concentração significativa de demandas relacionadas aos chamados minutos residuais — tema que envolve o tempo gasto por colaboradores em atividades necessárias para o exercício de suas funções, como a troca de uniformes antes ou depois da jornada de trabalho.

A existência desse tipo de demanda não era desconhecida pela equipe jurídica.

O que mudou foi a capacidade de mensurar o fenômeno com precisão.

A análise permitiu identificar onde esses pedidos estavam concentrados, quais unidades apresentavam maior incidência, quais tribunais julgavam essas ações e qual era o impacto efetivo dessas demandas sobre o contencioso da companhia.

Aquilo que antes era percebido como uma possibilidade passou a ser demonstrado por dados.

E quando uma hipótese se transforma em evidência, o espaço para tomada de decisão se amplia consideravelmente.

Por que a inteligência artificial sozinha não teria produzido esse resultado?

Existe uma narrativa recorrente segundo a qual a inteligência artificial substituirá profissionais altamente qualificados. O caso da Nestlé aponta em direção oposta.

A tecnologia foi fundamental para processar grandes volumes de informação, identificar padrões e revelar oportunidades invisíveis dentro do contencioso. Entretanto, nenhuma dessas descobertas teria produzido resultados concretos sem a atuação humana.

Com os insights gerados pela plataforma, o departamento jurídico passou a trabalhar na construção de uma estratégia capaz de atacar a origem do problema identificado.

Esse processo envolveu análises financeiras, avaliação de riscos, construção de cenários, alinhamento com lideranças internas, discussões sobre impactos operacionais e uma longa negociação coletiva.

Trata-se de uma distinção importante. A inteligência artificial identificou a oportunidade. Os profissionais jurídicos transformaram essa oportunidade em resultado.

Nenhum algoritmo negociou acordos coletivos, conduziu reuniões ou mobilizou diferentes áreas da organização. Essas atividades continuaram dependendo de competências humanas como comunicação, liderança, julgamento, negociação e construção de consenso.

É justamente nessa interação entre tecnologia e expertise humana que surge um conceito cada vez mais relevante para o futuro das organizações: a cointeligência.

Leia também: 10 sinais de que você precisa de IA jurídica na sua pesquisa jurisprudencial

O conceito de cointeligência aplicado ao Direito

Popularizado pelo professor Ethan Mollick, da Wharton School, o conceito de cointeligência parte de uma ideia simples: os melhores resultados não surgem quando seres humanos competem com a inteligência artificial, mas quando trabalham em colaboração com ela.

Enquanto sistemas de IA possuem enorme capacidade de processamento, reconhecimento de padrões e análise de dados em larga escala, profissionais experientes continuam sendo indispensáveis para interpretar contextos, definir prioridades, negociar interesses e implementar mudanças.

No caso da Nestlé, a divisão de responsabilidades tornou-se bastante clara.

A inteligência artificial foi responsável por consumir uma quantidade massiva de dados processuais, identificar tendências e apontar áreas de maior impacto potencial.

Já os profissionais jurídicos utilizaram esse conhecimento para construir uma estratégia capaz de produzir mudanças concretas dentro da organização.

Essa combinação permitiu que a companhia deixasse de atuar apenas sobre os efeitos do contencioso para atuar também sobre suas causas.

É uma mudança de paradigma que tende a se tornar cada vez mais relevante à medida que a quantidade de dados disponíveis para tomada de decisão continua crescendo.

Antes e depois: como a inteligência jurídica mudou a tomada de decisão

Modelo TradicionalModelo Orientado por Inteligência Jurídica
Análise limitada por capacidade humanaAnálise de milhares de processos em escala
Identificação manual de tendênciasDetecção automatizada de padrões
Decisões baseadas em percepçãoDecisões baseadas em evidências
Atuação predominantemente reativaAtuação preventiva e estratégica
Priorização subjetiva de riscosPriorização orientada por dados
Foco em processos individuaisFoco nas causas estruturais do litígio

A mudança não aconteceu apenas no uso de tecnologia.

Ela ocorreu na forma como a organização passou a enxergar seu próprio contencioso.

Os resultados alcançados

Após a implementação das medidas decorrentes da estratégia construída a partir dos dados analisados, a Nestlé observou uma redução aproximada de 43% nas demandas relacionadas ao tema trabalhado.

O resultado é expressivo por si só, mas ganha relevância ainda maior quando observado sob uma perspectiva estratégica.

A companhia não apenas reduziu o volume de litígios. Ela desenvolveu uma capacidade de identificar problemas estruturais antes que eles se transformassem em passivos ainda maiores.

Além da diminuição das demandas, o projeto trouxe ganhos relacionados à previsibilidade jurídica, priorização de riscos, eficiência na alocação de recursos e fortalecimento da governança corporativa.

Mais importante do que resolver um problema específico foi criar um modelo de atuação baseado em dados e inteligência jurídica.

O que outros departamentos jurídicos podem aprender com esse caso

Durante muito tempo, a tecnologia jurídica foi associada principalmente à automação de tarefas operacionais. Embora essa aplicação continue sendo importante, os casos mais avançados de uso de inteligência artificial apontam para um horizonte diferente.

O verdadeiro potencial dessas ferramentas não está apenas em produzir petições mais rapidamente ou revisar contratos com maior eficiência.

Ele está na capacidade de revelar oportunidades que permaneceriam invisíveis em análises tradicionais.

Ao combinar inteligência artificial, jurimetria e conhecimento especializado, departamentos jurídicos passam a atuar de forma mais próxima das áreas estratégicas do negócio. Deixam de ser apenas gestores de processos e tornam-se produtores de inteligência para tomada de decisão.

A experiência da Nestlé demonstra exatamente essa transformação.

O papel da Turivius na transformação de dados jurídicos em decisões estratégicas

Casos como o da Nestlé demonstram que o desafio das organizações não está apenas em acessar informações jurídicas, mas em transformar grandes volumes de dados dispersos em inteligência acionável para tomada de decisão.

Foi justamente para resolver esse problema que a Turivius desenvolveu uma plataforma especializada em inteligência jurídica e jurimetria.

A tecnologia combina uma das maiores bases de dados jurídicas do Brasil — com mais de 130 milhões de decisões judiciais e milhões de processos atualizados diariamente — com modelos avançados de inteligência artificial capazes de compreender o contexto do Judiciário brasileiro, identificar padrões, classificar informações processuais e gerar análises estratégicas em escala.

No caso da Nestlé, essa capacidade permitiu transformar milhares de decisões trabalhistas em uma visão estruturada do contencioso, revelando oportunidades que dificilmente seriam identificadas por meio de análises convencionais.

Mais do que automatizar tarefas, a plataforma foi desenvolvida para apoiar departamentos jurídicos na identificação de riscos, tendências e oportunidades de atuação preventiva.

Essa abordagem reflete uma mudança importante no papel da tecnologia jurídica. Em vez de substituir profissionais, a inteligência artificial atua como uma camada de amplificação da capacidade humana, permitindo que equipes jurídicas dediquem mais tempo à estratégia, à negociação e à tomada de decisões de alto impacto.

Hoje, empresas e escritórios utilizam a Turivius para aplicações que vão desde pesquisa jurisprudencial assistida por IA até análises avançadas de contencioso trabalhista, tributário e cível, sempre com o objetivo de transformar dados jurídicos em vantagem competitiva.

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Conclusão

A redução de 43% observada pela Nestlé é um resultado relevante, mas talvez não seja o aspecto mais importante dessa história.

O verdadeiro aprendizado está na demonstração de que inteligência artificial e expertise humana não são forças concorrentes. Pelo contrário, produzem resultados mais expressivos quando atuam em conjunto.

Ao utilizar jurimetria e inteligência artificial para transformar milhões de dados processuais em evidências acionáveis, a companhia conseguiu identificar uma oportunidade estratégica, construir uma solução baseada em negociação e promover mudanças capazes de gerar impacto concreto no negócio.

Em um cenário no qual a quantidade de informações cresce exponencialmente e a complexidade regulatória se torna cada vez maior, a capacidade de transformar dados em inteligência poderá se tornar um dos principais diferenciais competitivos dos departamentos jurídicos.

E é justamente nesse ponto que a combinação entre tecnologia, conhecimento jurídico e visão estratégica deixa de ser uma inovação para se tornar uma necessidade.

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